SERMÃO DE UM PASTOR Romeu Prisco No passado, já disseram que eu tinha cara de padre. No presente, há quem diga que tenho cara de pastor. Pois bem, padre eu nunca seria, por total falta de ânimo para freqüentar um longo seminário, mas pastor... Então, se eu fosse pastor de alguma igreja, internacional, mundial, universal, interplanetária, intergalática, ou coisa que o valha, receberia os fieis fazendo sempre o mesmo sermão, como segue. Meus irmãos: ouçam com bastante atenção o que vou lhes dizer, porque, depois deste culto, espero nunca mais vê-los nesta igreja. Não, não fiquem surpresos e nem aborrecidos. Nada tenho pessoalmente contra vocês. Acontece que vocês não merecem ser enganados e nem iludidos. Como vocês vieram aqui em busca de Deus, da Sua palavra, dos Seus milagres, ou de quem O represente e interprete os Seus pensamentos, é melhor que saibam logo a verdade. Que Deus não está somente aqui, todos já devem saber. Deus está em todos os lugares, inclusive e principalmente, dentro das pessoas. O que vocês talvez não saibam, é que eu não O represento. Dele nunca recebi uma procuração e nem mesmo uma simples autorização para falar em Seu nome. Não realizo curas e nem faço milagres como mandatário divino. Se o fizesse, sairia pelo mundo, percorrendo hospitais e casas de saúde, para aliviar o sofrimento de incontáveis doentes, sem distinção de credo, cor, raça, idade, sexo e posição social. Quantos esperam por essas curas e milagres divinos, mas, sequer têm condição de locomoção, para buscá-los em igrejas. Não tenho a mínima habilitação para realizar qualquer intermediação entre vocês e Deus, que lhes garanta, após a morte, um lugar de tranqüilidade no céu, ou no paraíso. Se tivesse, procuraria, antes, garantir-lhes um lugar parecido com esse aqui na terra, ainda em vida. Não tenho permissão de Deus para lhes impor punições por pecados, ou destes absolvê-los. Se tivesse, também sairia pelo mundo impondo castigos a criminosos e delinqüentes de toda espécie, principalmente àqueles que não são alcançados pela justiça, assim como, ao mesmo tempo, absolveria aqueles que já cumpriram suas penas. Não tenho nenhum poder para efetuar cobranças em nome de Deus, seja a título de dízimo, ou o que for. Se tivesse, não saberia como a Ele prestar contas. Tanto quanto é do meu conhecimento, Deus não possui nenhuma conta bancária. Porém, se algum poder tivesse, gostaria que tal poder me permitisse, isto sim, efetuar depósitos na conta bancária de vocês, que os ajudassem a enfrentar seus compromissos financeiros e lhes possibilitasse uma sobrevivência mais digna. Portanto, meus irmãos, saiam desta igreja e nunca mais voltem. Que cada um procure Deus à sua maneira e não à maneira de quem Dele se diz representante. Que cada um estabeleça um diálogo com Deus do seu modo. Com suas próprias palavras e pensamentos. Com seus próprios ritos e preces. Acima de tudo, que cada um seja seu próprio Deus e assim o veja nos seus semelhantes.
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Escrito por Romeu Prisco às 10h12
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